Opinião: Valdivia, o ídolo torto
domingo, março 08, 2015No quinto dia de agosto do ano de 2006, o Palmeiras assinava um contrato com um jogador até então desconhecido do torcedor brasileiro. Nome: Jorge Valdivia. Apelido: Mago. Se ficar difícil lembrar do longínquo ano de 2006, lembre-se do seguinte: tínhamos no time Gamarra, Juninho Paulista e Edmundo. Sérgio e Diego Cavalieri eram os reservas do Marcão. Tite era nosso técnico, que seria substituído por Marcelo Villar depois da rusga com Palaia.
Hoje, quase nove anos depois (e para os anais da história, escrevemos esse texto no início de 2015, quando o Palmeiras se recheou de ótimas contratações para o ano), Jorge Valdivia (ainda) é um dos principais jogadores do elenco palestrino, sendo protagonista da grande maioria das partidas que consegue jogar.
E esse é, inclusive, o motivo da enorme polaridade em torno do jogador, a divisão de parte da torcida que o elege como um dos maiores ídolos da história palestrina contra outra parte que o trata como aproveitador, vagabundo e “chinelinho”, só comparável aos atletas mercenários que não honraram nossa sagrada camisa. Enquanto a confraria do ódio pede para que o jogador saia do clube, a grande massa que gosta do futebol bem jogado pede para que ele se aposente no Palmeiras.
Alguns irão dizer que somadas às contusões, o comportamento extra-campo do meia palmeirense deixa a desejar. Noitadas e bebedeiras. Camarotes de Carnaval. Como se o torcedor achasse que o jogador devesse então ser um robô, sem direito a lazer ou uma vida “normal”. Para o torcedor comum, aquele não profissionalizado e nem ligado à nenhuma facção política dentro do clube, pouco importa como o craque leva sua vida, desde que em campo honre o manto.
E é claro que sendo ele uma pessoa pública, que trabalha com seu vigor físico, se torna impossível não haver esse tipo de cobrança, ainda mais com seu histórico de lesões. Só fica difícil para alguns entender que ele não se machuca na balada e sim em campo e, me desculpem, não contratei um padre para jogar bola: contratei um Mago.
Mas uma coisa é inegável e parece ser unanimidade entre toda a torcida (e até para os rivais): poucos jogadores no Brasil tem a qualidade técnica que o Mago tem. Joga de cabeça erguida e suas enfiadas de bola entortam qualquer defesa. Trata a bola com a qualidade e a facilidade dos mestres, independente de quantos marcadores o cercam. Ver Valdivia jogar pode até induzir o espectador ao erro, porque com ele parece ser fácil jogar bola. E não vamos esquecer que aqui é Academia, cáspite!, tem que tratar bem a bola e isso o Mago faz como poucos.
Depois de praticamente carregar o time nas costas em 2014 (juntamente com Fernando Prass), não pediu salários astronômicos para renovar. Sua pedida foi um time forte e competitivo para que o Palmeiras não passasse mais pelo fantasma do rebaixamento (e creio que não preciso lembrar ao torcedor que ele, a exemplo de São Marcos em 2002, enfrentou de cabeça erguida o rebaixamento do Palmeiras em 2012. Um jogador de seleção em um time de série B, sem frescuras com a tal visibilidade).
Hoje carrega nas costas o número 10, o mesmo usado por Ademir da Guia, o Divino, ídolo eterno. Tem um histórico de contusões graves da mesma forma que nosso eterno e amado São Marcos, mais um ídolo palmeirense. Inferniza dentro e fora das quatro linhas e não se deixa intimidar pela imprensa marrom como outro ídolo, Edmundo. Corre, grita, chora e, cáspite!, beija o escudo do time. Ama o Palmeiras como todos nós, torcedores de coração.
No Palmeiras sempre foi difícil um atleta se tornar ídolo. Não é qualquer um que consegue essa façanha. Somos chatos demais, críticos demais e temo que até injustos demais. Mas que me desculpe a turminha do amendoim ou aquela torcida organizada que vive pegando no pé de todo mundo, mas Jorge Valdivia é nosso ídolo, sim.
Um ídolo torto, talvez.
Mas um ídolo como poucos.
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